couple dialogue for dummies
- Fala alguma coisa.
- Hein? Tipo o quê?
- Sei lá. Qualquer coisa. Silêncio chato, esse.
- Hum… vejamos…
- Não vale falar de ir visitar tua mãe.
- Ah! Como se eu falasse disso o tempo todo!
- Bom, fala sempre que não tem mais o que falar.
- Faz tanto tempo que a gente não vai lá, tenho pena.
- Pena do quê? Da última vez ela ainda te deu umas palmadas…
- Mas foi s…
- …porque você levou Hipoglós para ela!
- Ai, amor.
- Hã.
- Falando assim, até parece que eu fiz por mal!
- Claro que não, mas cê já deveria ter aprendido, né.
- Por quê?
- Depois da vez que ela cuspiu a água do copo da dentadura quando você resolveu presentear com um Corega.
- Hahaha, e cuspiu em mim!
- Louca.
- Não fala assim da mamãe!
- Eu também ficaria se meu filho resolvesse me presentear com artigos de farmácia!
- Poxa, só quero ajudar. A aposentadoria dela é curtinha.
- Ah, deixa disso. Ela ganha a pensão de militar do teu pai. Tu só não tem ideia de presente.
- Jogo fora então o Vasigil?
- Você comprou um Vasigil para a sua mãe?
- Ah, sei lá, quem sabe assim ela se sente estimulada a sair de casa, arranjar um namorado, se divertir.
- A mulher jogou farofa no meu cabelo quando eu levei chester para o Natal e ela queria um peru!
- Ninguém mandou inovar. Aliás, eu avisei.
- Inovar. Exatamente. Jura que cê tá pensando em arranjar um namorado para ELA?
- Poxa, papai gostava tanto.
- Se eu me lembro bem, “papai” foi quatro vezes para a Amazônia, voluntariamente.
- Papai era um homem bom.
- Era um homem são! E queria continuar assim, por isso passou 20 anos fazendo guarda no limite com, sei lá, o Equador.
- Amor, Equador não faz fronteira.
- Chile.
- …
- …
- Sério?!
- Panamá. Macapá. Porto Rico.
- Poxa, amor.
- Cê sabe que eu nunca fui boa em Geografia.
- Eu sei que você se apaixonou na primeira cola de Geografia que eu te dei.
- Hahaha! Eu achei foi ridículo! Que coração era aquele?
- Ai, não vamos voltar nisso, não.
- Aliás, é bem pela Geografia que sua mãe adora me atazanar.
- Por quê?
- Ela sempre me pergunta a capital da Suécia.
- Jura?
- Juro.
- E jura que você ainda não sabe?
- …
- Hahahaha!
- Não sei qual é a dessas perguntas que ela faz.
- Saudosismo, sei lá.
- Terrorismo, você quer dizer. A última vez que eu não soube responder, sobrou pimenta no pato assado.
- Até parece.
- No MEU pato assado.
- Bom…
- Falo mais nada, não. Tô começando a me irritar.
- Irritar?! Por quê?
- Irritar com essa velha.
- AMOR!
- Ai, desculpa. Sabe como eu fico.
- Ok.
- …
.
.
.
.
- Fala alguma coisa.
ensaio: maria-que-tudo-via
Era tanta pretensão a escorrer pelos cantos de Maria e por alguma razão algum deus inconsequente tratou de dotar-lhe de olhos a parte de trás da cabeça: um dia acordou e viu-se assim, quadrividente, tetraoculada, monstro mitológico, panóptico de osso revestido em carne; ela não apenas se viu assim como viu o resto do mundo. O grande problema de ter os olhos grudados na cabeça, onde quer que eles estejam, acima do nariz ou na nuca, Maria nunca descobriria, porque aquele sentimento a escorrer-lhe os lados babava por sobre as sobrancelhas e os cabelos e tapava todos os seus olhos, inatos ou recém-adquiridos: O grande problema de ter os olhos grudados na cabeça é que eles estão virados para fora. Virados para dentro, quem sabe, não fizessem o mal que souberam fazer a Maria, e que ela nunca descobriria terem-lhe feito, por de repente enxergasse aquilo tudo que ela negava ver. Só depois dos quatro olhos é que Maria recebeu de um amigo distante, numa correspondência que nem era endereçada a ela, um espelho e dele não fez muito uso, deu algumas espiadas e jogou fora, os olhos estrábicos a tentar apreender um mundo que não era dela, mas que ela tanto mirava e admirava, os olhos tortos da frente e de trás a não focar nem espelho nem mundo, nem Maria nem pessoa. Tentou viver com seu dom e conseguiu com algum sucesso, vivia e via e sabia demais porque via, e se apaixonou pelo que via ou talvez pelo simplesmente ver: ela se alimentava de espectros, de frequências e de radiações. Maria percebeu o poder que tinha, o alcance de sua visão, e logo tratou de querer enxergar sempre mais longe, e muito, e mais. Viu demais. Em algum momento de seu exercício acabou por perder a noção de espaço. E todas as medusas que ela enxergava a distância (qualquer outro notaria) para ela faziam parte de seu espaço mais íntimo e recolhido. Logo não mais conseguiria fechar todos os olhos ao dormir: seria sempre um a espreitar o ambiente, seria sempre um a fazer guarda, seria sempre um daqueles olhos enormes e brilhantes que tudo enxergavam. Mas Maria era míope. Os poucos amigos de verdade que não temeram frente ao poder de sua visão, os poucos amigos que ela não tratou de mandar longe por conta daquela capacidade intimidadora nunca se empenharam de verdade em desvendar Maria e fazê-la entender. Talvez algum deles tenha até lhe emprestado um par de óculos que não lhe serviu. Não se sabe. Maria tenta conviver com sua grandeza, hoje tão pequena, tão frágil, tão finda, e sua humanidade. Mas os humanos não têm quatro olhos.
rraw*
* Baseado numa história real.
E daí que estou deitado na minha cama, o edredom tapando até a cabeça mas caindo além dos meus pés e encostando no chão. E daí que meu cachorro — que desde o inverno resolveu que é melhor dormir no meu quarto — rapidamente sai de onde está, percebendo o pedaço de edredom ao chão, e se joga em cima dele. Acontece com frequência: estou quase dormindo e sinto um puxão nas cobertas. — Chato, eu penso. Levanto as pernas ou as dobro, dependendo da posição como estou deitado, puxo o edredom para cima, enrolo nas pernas e assim consigo afastá-lo do meu cachorro, que rola para fora do tecido. — Chato, ele pensa. Mas pensa assim, mesmo. “Chato”. Se não com todas as letras, porque pode ser que no mundo dos cachorros não exista dígrafo (nesse caso quem inventou a palavra “cachorro” seria para eles um ser muito cruel), ao menos com todos os sons. “Xatu”, então, e vai deitar em outro canto. Eu queria saber como é que funciona pelo menos o nosso cérebro, se não posso desvendar o dele. Porque é bem conhecido o caso dos falantes estrangeiros que não conseguem nunca reproduzir um fonema da língua que eles tentam falar, se para esse som não existe correlato na língua nativa. Uma coisa meio preguiçosa do nosso cérebro mesmo, que a uma certa idade resolve ignorar todos os outros sons possíveis de todas as outras línguas possíveis e se atém só àqueles que ele estava acostumado a ouvir e reproduzir. O efeito disso é que os tais falantes estrangeiros não conseguem nem reconhecer a diferença do som, eles relacionam com um parecido na língua nativa e pronto, acaba a história. Eu queria então saber como é que meu cachorro articula as palavras na cabeça dele, dado que ele é lusófono desde pequenininho, nunca nem ouviu um cachorro latir em outra língua até ter um ano, coisa assim. Porque meu cachorro pensa muito. Ele vive exausto de tanto pensar. Deita na caminha, levanta da caminha, caminha de um lado para o outro pela casa e se estarra no sol, só lá pensando. E pensa, pensa muito, e acaba dormindo de tão cansado que é esse processo todo de pensar. Ele gostou muito de Amores Perros, que viu deitado ao meu lado no sofá da sala. Tenho certeza de que pensa ainda sobre isso, tem umas cenas impressionantes. Mas pensa também (e daí é que fica exausto:) na ração que ele vai comer, se ela finalmente vai mudar ou vão continuar insistindo naquelas bolinhas insossas, pensa nas manifestações no Irã, pensa no bolsa-família, no tráfico de drogas na Colômbia, na realidade cruel dos cachorros de rua (o lumpemproletariado canino), numas metáforas bem pós-modernas, mas logo esquece, pós-modernismo não é para os terriers, ele pensa, então pensa também em como se comunicar a longa distância com o pastor alemão que nos impede de dormir às 3 da manhã, no jornalismo da rede Globo, no terceiro mundo, numas questões de gênero (por que afinal uma fêmea custa mais caro?), numas questões de raça (canina), vislumbra a possibilidade de fertilização in vitro para romperem-se as barreiras do amor interracial entre pinschers e filas brasileiros, volta a pensar na opressão dos chihuahuas de madames, na objetificação dos cachorros, na falta de cuidados das pet shops, na Revolução. Que eu só não sei bem como fica no cérebro dele, porque ao que parece no mundo dos cães não existe cê cedilha nem dois ésses.
desculpa
Ele diz que me ama, que eu sou a coisa mais linda que ele já viu na vida, que quando viaja só pensa em mim, que esqueceu de comprar rosas hoje, mas que queria, que vamos ao cinema no domingo, que não é cara de coisa séria, mas que gosta de mim, me liga quando lembra (quase nunca) perguntando como é que foi o trabalho, se eu terminei o livro do Chico Buarque, se eu ainda ouço aquela banda finlandesa, por que eu não mandei um e-mail em resposta, fala que minha filha é linda, que se tivesse um filho queria que fosse como ela, linda e quietinha, comenta do meu cabelo, elogia a minha roupa, cheira meu pescoço, fala bem do meu perfume, beija docemente, escorrega as mãos, aperta minha perna, diz que vai ligar no dia seguinte.
Eu sei que é só para continuar me comendo. Mas sempre caio.
inácio, de início
Eu estava lá e àquela hora a festa já estava realmente frenética, com o perdão da gíria tão antiga, mas são pequenas manias que me acompanham desde que aprendi a tê-las. Mania é assim mesmo, a gente não pega porque necessariamente acha bonito ou pega desprevinido, a gente aprende e pega e se apega e daí logo já está soltando um “melindrosa” no meio da conversa ou quem sabe pulando num pé só. Veja bem. Não é TOC. É só uma mania, pular num pé só, caso seja sadio. E é, mas você corre o risco de ficar com uma panturrilha hipertrofiada em detrimento da outra e onde eu estava mesmo? ah, sim. A festa àquele momento estava frenética, agitadíssima, ou era eu quem estava, porque tinha acabado de virar aquela caipirinha que na verdade era cachaça com duas gotas de limão e já estava segurando a quinta cerveja da noite, que eu nunca deixava esquentar. O que realmente importa é que ele também estava lá e eu estava olhando um olhar fixo e destemido, uma coisa meio que me lembrava daqueles documentários de serpentes e o momento do bote, ou mesmo me lembrava do Tico, o gato de rua que um dia resolveu aparecer aqui em casa e comeu o Tico, meu hamster. O nome do gato só veio depois que eu percebi que de alguma forma ele havia incorporado o Tico em sua beleza externa – ele era plumadinho, branquinho com uma mancha meio vermelha na coxa esquerda – e também em todas as suas entranhas e tudo aquilo que fazia do Tico o Tico e assim ele ficou sendo conhecido. Sumiu, um dia. Deve ter sido envenenado por um dos vizinhos covardes que eu coleciono aqui na rua. De qualquer maneira, eu estava lá com os olhos fixos e pronto para o bote, como eu sempre estou mesmo, e de repente ele veio em minha direção e eu acreditei. É sempre um momento interessantíssimo quando você sente essa energia no ar, uma coisa meio selvagem e luxuriosa, quase animalesca, como se de repente você fosse um cachorro e o aroma de uma cadela no cio, delicioso, lhe entrasse pelas narinas e acionasse alguma alavanca dentro do seu cérebro. Falta isso aqui para você ficar visivelmente excitado, porque lá dentro você já sente em todos os milímetros do seu corpo e seus milhares de poros e centenas de fios de cabelo e pêlos que arrepiam de repente aquela excitação que falta pouco, muito pouco para lhe transbordar. Então ele veio vindo, ele já havia piscado para mim dois minutos antes, então eu sabia que ele vinha para mim, eu estendi meu braço esquerdo como já haviam feito comigo e me agarrado pela cintura para me tomar a atenção. Eu estendi e ele veio, ele olhou nos meus olhos, não sem antes passar por cada detalhe do meu corpo, a calça apertada nas coxas, a virilha, a blusa abotoada até o início de meu peito, meus braços e meu ombro, ele me comeu com os olhos naquele momento e de repente ele olhou direto para mim e eu paralisei, como se uma outra serpente tivesse logo dado o bote naquela serpente, que era eu, que se preparava para atacar o Tico, ou o rato. Eu já não sabia mais falar e a verdade é que nem sabia mais me mexer, minha língua não saía do lugar, talvez eu tenha grunhido alguma coisa, eu não lembro, eu havia virado aquela caipirinha. E então ele disse que ia lá buscar um guaraná, achei tão veado tomar guaraná naquela festa, mas tudo bem, ele ia lá buscar um guaraná no bar. Foi só ele sair e a festa acabou, e não era delírio meu que vinha do álcool, era a polícia que estava batendo no tal lugar que devia não ter aval para funcionar, ou quem sabe estivessem procurando o fornecedor de cocaína que pintava sempre naquela festa e todo mundo se esbaldava, eu só virava caipirinha, mas o resto todo se esbaldava e tomava banho de pó e enlouquecia, e talvez por isso eu imagine que a festa estava frenética, mas acho mesmo que pode ser culpa da minha percepção do álcool, afinal era mais comum aquele tipo de festa ficar parada que super agitada e, bem, frenética. O fato é que a polícia bateu e todo mundo foi embora e eu perdi meu Tico, meu hamster, meu rato, meu gato. De novo. Se você encontrá-lo, por favor. Avise.
pas une drôle de personne
É tudo tão confuso de repente.
A inquietude incômoda que assola. A sensação desconfortante de que a gente voltaria atrás por qualquer esmola. Parece não ser suficiente crescer, quando tudo o que se quer da vida é o próprio passado. Não é por acaso. A gente constrói a sensação. Alimenta. Dá carinho, chama junto. Se ela por algum motivo some ou vai embora, logo volta. Porque a gente chama. É difícil controlar, porque, no fundo, ela conforta tanto quanto desconforta. A gente abraça o incômodo. Agarra no espinho. E sangra.
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