E morrer não fora tão difícil, afinal. Difícil fora nascer de novo, de dentro para fora, que ainda não havia morrido a carne. Havia apenas sofrido uma ruptura que a possibilitou escoar toda a sua humanidade e a sua vida para fora de si e daí a se ver, de novo, como corpo estéril e inerte. Construir-se novamente, juntando todos aqueles cacos pela rachadura perpassados, de maneira a não saber que figura resultaria do novo mosaico – e queria ela saber, por acaso?, que estava tão cansada de tudo que era e mais do que não era –, exigira tanto esforço.
Para nada.
Mas sempre escoar. Ser de novo o não ser si mesmo.
Novamente existir como aquilo que não se era, na esperança de, não sendo, ser também pelo que não se é.
E aguardar a ruptura.
E voltar-se mosaico.
Para pintar o retrato de um pássaro (Jacques Prévert)
Primeiro pinte uma gaiola
com a porta aberta.
Depois pinte
algo gracioso
algo simples
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
em um jardim
em um bosque
ou em uma floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover…
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos, se for necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultado
do quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele o fizer
observe no mais profundo silêncio
até ele entrar na gaiola
e quando ele assim agir
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então,
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar na plumagem do pássaro.
Em seguida, pinte o retrato de uma árvore
escolhendo o mais bonito de seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas, na relva,
sob o calor do verão.
e então espere até que o pássaro decida cantar.
Se ele não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza, você arranca
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome em um canto do quadro.
las manos
(os que não gostarem têm o meu respeito)

Olhou para as mãos. Ou olhou as mãos, porque as examinava. As linhas da cara haviam ido parar também nas mãos, era tão difícil envelhecer. Contasse as inúmeras marcas nelas, certamente chegaria à sua idade verdadeira. Era muito velha, apesar da idade. A verdade é que já não mais trabalhava, nem estudava, nem lia. Continuava sobrevivendo, vendo os dias a passar do alto de sua cama. Ela chorava. Mas logo que surgiu aquele sentimento, aquela coisa, aquele fogo, aquele amor todo por algum rapaz de dedos longos e mãos suaves, ela percebeu que precisava descer da torre.
Foi à quiromante. Era tão difícil seduzir, já fazia bastante tempo, melhor então que tivesse alguma direção de quem quer que fosse, dos astros, dos espíritos, das cartas, da mente perturbada de uma cigana na rua. Estendeu las manos, os dedos bem abertos e separados.
Olhou para as mãos. Ou olhou as mãos, porque as examinava. Aquelas linhas todas curvavam-se sobre si e não seria exagero dizer que pareciam até letras de um texto. Porque eram, e ela estava disposta a lê-las. Começou, e logo desenhou-se uma história tão bonita contada por aquelas tantas linhas, importam de quê linhas de vida e amor e sucesso quando ali se estende frente a ela uma narrativa? Então foi apreciando todos os personagens e desventuras e paixões que na história apareciam, uma lágrima escorreu num momento, um riso explodiu noutro instante, a mulher à frente dela era quase um livro. Tão belo o que viu. Contou.
Enfim estavam naquele restaurante mais ou menos, era bem o máximo que podiam arcar com o dinheiro de dois artistas. Mas tudo parecia tão mais tangível naquele momento, ela parecia finalmente ter acordado de um sonho só para descobrir que não estava dormindo, nunca mais voltou à torre. Ele as pediu por um momento e ela ainda meio contida entregou-lhe.
Olhou para as mãos. Ou olhou as mãos, porque as examinava. Que nunca havia visto mãos tão belas e tão poderosas, aquelas linhas todas que pareciam fazer crescer o contato, ele as colocou sobre o rosto e sentiu-a viva. Não era tão cedo, porque foi arrebatador, porque foi tão certeiro e bonito o que ele sentiu quando pousou as mãos dela sobre seu rosto, seu corpo, seu eu. E ela tocou. Cada linha daquelas representava todo o amor que tinha, e eram tantas, e seu amor era tanto que talvez nem suportasse. Logo estendeu e afastou-lhe os dedos, escolheu um e o arrancou com os dentes. Só queria uma recordação do amor que tinha.
imagem: Las manos del mendigo – Oswaldo Guayasamín
na chaise-longue
Eu não sei exatamente o que eu estou fazendo aqui. Minha irmã que falou para vir. Disse que era bom se abrir com alguém. Acho estranho pagar alguém para ouvir meus problemas, mas é minha irmã quem está pagando. Até injeção na testa, né? Por onde eu começo? Pela infância? Vocês adoram, eu sei. Quê? Não é psicanálise? Hum… Nem sabia que isso existia. Então deve ter nada a ver o que aconteceu comigo quando era menor, né? Ou tem? Não que eu tenha qualquer drama familiar para contar. Que eu saiba, porque vai saber como é que a gente funciona, eu sempre digo; li na revista que a gente faz essas coisas de apagar da memória o que não tem como suportar, tão bonito isso. Diz que é para a gente não sofrer com trauma. E que quando volta, devasta. Aconteceu com a minha irmã. Quando ela se afogou na banheira de casa, com uns seis, cinco anos. Eu lembrava, mas ela não, até o dia em que se engasgou tomando um copo de água e desde então não encosta mais em qualquer coisa com água a mais de litro. Claro que ela foi fazer análise. Não, sei lá se era análise ou terapia, desculpa o mau jeito, mas de que importa, né. Não sei se vai dar certo. Fosse eu, jogava ela numa piscina. Ou no mar. Duvido que não curasse esse trauma. Trauma… vou te contar. Se bem que eu não sei exatamente em quê a minha irmã não saber do… ah, sim, desculpe. Sou eu. Não minha irmã. Bom, começar por onde? Por que eu falo virado para você? Quando passou na novela, o divã ficava virado para o outro lado, né? Ou é uma chaise-longue? Eu nem deveria ver você. Ah, entendi. Mas fico meio encabulado de você olhando assim para mim, parece que reprova. Impressão, né. É só que você é meio austero. He, palavra legal, austero. Li no livro do Ubaldo Ribeiro semana passada. Minha irmã quem me deu. Nem era dela, ela que comprou na livraria. Cheiro de livro novo é alguma coisa, eu adoro. Posso passar horas cheirando antes de começar a ler. Talvez seja exagero dizer horas, mas eu dormi cheirando o livro quando ganhei. Acabou ficando com o cheiro do meu xampu. Deveria ter xampu com cheiro de livro novo. Ou não. Ia ter gente que nem eu pendurada na cabeça dos outros, só pra cheirar. Minha irmã não consegue sentir cheiro. A gente não acreditava nela, lá em casa, até ano passado, quando ela foi no otorrino. Ele disse que pode ter sido o afogamento, e daí quem não acreditou foi ela, que não acreditava tinha se afogado. No dia seguinte, pimba!, engasgou com a água. Ela ficou tão triste, tadinha. Não sei bem por quê, eu acharia bom finalmente lembrar aquilo que todo mundo diz que aconteceu e você acha que, seilá, foi um sonho coletivo. Mas ela ficou triste. E nos meses seguintes ela só falava de anosmia. Eu nem sabia que isso existia, nem ninguém lá em casa. Mas minha irmã de repente tinha anosmia, era anósmica, anêsmica, ou sei lá como chama quem sofre disso. Ela ainda não lembra que conseguia sentir cheiro antes do acidente, louco isso, né? Minha irmã. Aí começou a terapia e adorou. E daí me pagou essa consulta aqui. Chama consulta, mesmo? Que engraçado. Quer dizer, nem tanto. Por um segundo eu pensei que, bem, você não está me consultando, nem estou consultando você, afinal estou só aqui falando dos meus problemas, mas no fim você vai me dar um diagnóstico ou fazer acompanhamento, sei lá. Como estou me saindo? Minha vida é um caso sério! Não sei nem como consegui atingir o desprendimento de toda a minha timidez e abrir para você a minha vida, como se fosse um livro. Eu sei, acontece tanta coisa comigo. Já falei quase tudo para você, acho. Eu só tive conversas assim com a minha irmã, e nem me abri tanto. Nem fui tão fundo. Acho que estou gostando desse negócio de terapia. Se minha irmã pagar, claro. É tão caro para mim, mas minha irmã é legal. Quer me fazer uma pessoa melhor. Melhor em quê, não sei. Não sei por que me mandou para cá. Por que me recomendou terapia. Por que foi tão enfática em dizer que eu deveria ir e até se ofereceu a pagar a consulta. Minha irmã é coisa de outro mundo, sabe. Inteligentíssima. Carinhosa. Cheia de amigos. Eu tenho poucos amigos, mas minha irmã compensa todos eles que eu não tenho. Não, eu não moro com a minha irmã. Que loucura! Ela tem a vida dela; eu, a minha. Ela é tradutora. Sabe falar uma montoeira de línguas, é divertido. O namorado dela só fala árabe, além do português. Árabe! E não é que minha irmã sabe falar árabe?! E aprendeu antes de conhecer o tal namorado lá. Árabe… só minha irmã, mesmo, para falar árabe, com tanta língua bonita por aí; italiano é tão bonito, né? Eu queria ir para a Itália. Vi A Vida é Bela, tão lindo, já viu? Minha irmã que me recomendou, mas eu que comprei. Ah, cansei de falar de mim. Oi? Quando criança? Tá, vamos tentar. Eu fui uma criança abaixo do normal, para o desespero dos meus pais. Fui o primeiro. Logo veio minha irmã, nem me lembro da minha vida sem ela. Tem nem um ano e meio de diferença entre a gente. Ela era excepcional, no bom sentido da palavra, falou antes de mim e tudo. Eu sempre fui mais devagar. Tirando isso, era tudo certo. Fomos crescendo como duas crianças crescem, brincávamos, eu destruía algumas Barbies, ela destruía alguns brinquedos meus, eu odiava quando ela destruía meus brinquedos e por isso mesmo eu destruía as Barbies. Cada vez em mais pedaços. Eu lembro bem disso! Engraçado. A gente fazia tudo junto. Dormia junto. Comia junto. Ia para a escola junto, a pé, depois de bicicleta. Tomava banho junto. A gente tinha uma banheira tão grande! Cabíamos nós e mais um monte, acho, é a ideia que eu tenho da banheira da nossa segunda casa. Eu já tinha uns nove anos, então ela tinha sete ou por aí. A gente passava muito tempo junto na banheira e sempre brinc… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … … minha irmã… eu… eu tenho que ir.
Cecília
Ali, deitada na cama que ela conhecera há não mais que duas horas, nua, gelada da brisa fria que entrava por uma fresta aberta na janela do quarto, Cecília sabia muito bem que o que havia feito não iria exatamente levá-la à plenitude. Ela sempre procurava a plenitude. Quem a vê na rua, cabeça para o alto, um sorriso de dentes impecáveis para qualquer situação, a roupa colorida, o piercing no nariz, provavelmente não imagina que aquela garota seja algo menos que plena. Feliz, quem sabe. Ela ainda não resolveu a questão se plenitude é felicidade, mas, em sendo coisas diferentes, então ela preferiu fazer da primeira o verdadeiro objetivo de vida — não temos todos que ter um? –: uma vez que se é pleno, é-se pleno para sempre.
Ao lado de Rui, também nu, mas não tão gracioso, nem tão bonito, ela só queria saber onde, exatamente, havia errado daquela vez. Já fazia tempo que se apaixonara no passado, e aquele momento parecia tão certo quanto parecia enganoso, confuso em algum ponto. Não era difícil que se apaixonasse — e sempre aquela paixão violenta e arrebatadora, que um dia acabaria por destruir sua vida –, mas o mundo parecia cada vez menos capaz de fazê-la reviver o amor. Até que o mundo apresentou Rui, bonito e interessante o suficiente para que o contato fosse mantido por mais do que alguns dias.
De qualquer maneira, estar ao lado dele naquela cama representava algo que a mutilava por dentro.
Esfinge
Afasta-te de mim, que sou o amor em pessoa quando mais precisas do afago. Que sou o tédio que derruba a noite. O teu melhor amigo por alguns trocados. Rei das emoções trocadas, viradas, impossíveis, devastadas. Trama de não ter mais fim. Alma gêmea genérica, eu sou de todos, porque só sei ser assim. Bomba de reação em cadeia, não me completo mais que me destruo e destruo o próximo. E o próximo. E a ti. Corre para longe, que eu mato. Felicidade, eu mato. Eu sou a perdição que tu queres. Sou o ditador do teu destino. E morres sozinho, que eu te mato.
Afasta-te de mim. E deixa-te viver.
AMAR-GEDDON
R. C. Becker: E o edredom?
Victor: o edredom funciona como casamata, enquanto o amargeddon não passa.
R. C. Becker: ou é seu próprio palco.
pé torto
Olha, já faz tempo demais que eu tô aqui esperando te ouvir falar alguma coisa, nem sei bem. Cheguei ontem, acompanhado de tanta gente — tu viu? –, gente que foi embora e me deixou aqui. Cheguei triste. Queria tanto falar contigo, mas tu não me dá trela. Sempre foi assim, não é? Eu querendo demonstrar carinho e afeto e tu me mandando calar a boca, que isso não era coisa de homem. Agora tu não manda calar — fez voto de silêncio, foi? No fundo, tu gostava de quando eu ia todo manhoso para cima de ti, pedia carinho, dizia que eras a única. E já faz tanto tempo que eu tô aqui te olhando… faz mesmo. Talvez tu não tenhas percebido, talvez nem tenhas me visto, mas eu duvido muito, porque fiz muito barulho aqui fora. Tu nem me deixou entrar. Isso dói um pouco, sabe? não. Dói muito. A dor é aguda e lá no fundo.
.
Se tu saísse daí e pudesse falar comigo, que tal? Anda, sai logo. A gente tem tanto o que dizer! Não acredito que tu ainda não superou a vez que eu me mudei de casa, de cidade, de vida. Não era culpa minha, tu disse que tinha entendido e agora essa birra? Já passou da idade de fazer manha. Aliás, já passou há muito, muito tempo. Toma vergonha na cara. Vem aqui fora falar comigo. Estou esperando. Não vou esperar muito mais.
.
Acho que já passou da minha hora de ir embora, mesmo. Faz, o quê?, mais de vinte horas que estou aqui? Uma hora cansa esperar. A gente para de ter fé que as coisas vão mudar, que elas vão melhorar. Acho que tu tás decidida. Eu respeito. Não apoio, não suporto, mas respeito. Entendo, até. Olha, vou embora. Se tu quiseres falar comigo algum dia, me avisa. Passa lá em casa. Quer dizer, não passa, não. Não fala.
.
Eu te amo tanto. Se pudesse voltar no tempo, faria tanta coisa diferente! Tu foi a primeira, e sempre a eterna. Ninguém nunca se compararia a ti. Ninguém nunca seria mais, porque tu já era mais do que todas as outras pessoas que eu conhecia, e mais ainda do que todas aquelas que eu não conheci ainda. Tu não eras, tu és, mas esta distância atrapalha, aquela distância atrapalhou. Eu te amo tanto.
Mãezinha, sai deste túmulo!
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