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Publicado em ene por Victor em 14/09/2009

Sei que é o outro que define o que faço. Ao sair do carro, nem cinco minutos atrás, encontrei um amigo com quem há muito não falava. Ainda estamos conversando. Desenho um esboço rápido, rabiscado, do que vem acontecendo na minha vida. Ele olha para o lado, e sinto, nesse pequeno gesto, que me julga. Ceifa-me a liberdade em um lance de íris à direita. Gosto da sensação. De alguma forma, passo a significar algo além de mim mesmo, agora inscrito no pensamento do outro. Vislumbro as possibilidades de rebaixar-me ao olhar do outro. É algo agradável não ter de andar pelas próprias pernas, mas agarrado ao pensamento que o outro constrói acerca de mim. Não importa quantas vezes lhe diga que estava com fome. Sou bandido. De certa forma, é a primeira vez que passo a fazer parte de um grupo mais restrito que “o gênero humano”. A identificação não é de todo verdadeira, porém me completa. É verdade, é verdade. Não quero roubar. Mas me é fácil, agora. Ouço-o contar alguma coisa, mas não escuto. Estou absorto enquanto ele move os lábios e denuncia a improbabilidade desta conversa. Começo a acreditar que não estava bem com fome, que tinha apenas vontade. Meu coração se aquece. É a primeira vez que reconheço a liberdade, porque já não sou mais livre. Enquanto observo a língua de meu interlocutor tocar-lhe timidamente o céu da boca, na aparência de um “ele” que vejo mas não ouço, sinto um arrepio de prazer. É a angústia que escorre em totalidade para fora de mim. Pois que destarte sucumbo à verdade do outro: sou.

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Publicado em ene por Victor em 14/09/2009

Estou caminhando pelo estacionamento. É grande, é grande. Eu sempre descubro no momento mais desgraçado o quanto é grande este estacionamento. Hoje não chove, mas o vento bate direto contra o rosto, embaraça os cabelos, faz minhas bochechas ficarem vermelhas. Não que eu me importe com as bochechas ou os cabelos, caminho pelo estacionamento sozinho e não parece ter ninguém à vista. Só me importaria acaso houvesse o outro a caminhar também pelo estacionamento, mas todos esses transeuntes não sustentam qualquer categoria que valha a mim qualquer coisa digna de arrumar-me os cabelos ou cobrir-me as bochechas com o casaco de lã. Hoje descobri o quanto é grande o estacionamento porque não lembrei onde estacionei. Acontece com todos, acredito. Avisto o carro, finalmente. Saí do prédio atravessando a porta errada, caminhei mais de mil e oitocentas colinas para ter o desprazer de lembrar que o carro estava mil e oitocentas colinas atrás. À esquerda. Estou abrindo a porta do carro. Abaixo-me, sento-me. Estou dentro. Ainda não sei bem se foi a melhor ideia vir de carro. Mas já estou fora, então ligo. Dou a partida. Não liga. É bastante comum acontecer, e não sinto vergonha. Estacionei de modo que posso soltar o freio de mão e deixar o carro rolar alguns metros até que consiga ligar. Às vezes não tenho essa sorte, mas hoje tive. Estou tendo um dia bom.

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