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amou-a:
passei a escrever
em primeira pessoa.
a segunda como farsa
Era de repente tudo tão seguro no caminho sempre à frente que seguia Maria que algum deus irado com a força que ela inventou para si tratou de confrontar-lhe com espelhos. E circundou-a de imensas placas de vidro retorcido, fundadas em imensas placas de prata, que não sabia mais Maria se lhe cegava a luz que se refletia ou se lhe confundia o caminho sua própria imagem reproduzida daquela maneira distorcida, ou se era sua própria imagem ampliada e monstruosa a luz que de repente lhe cegava no trilhar de seu caminho. Imersa naquele cilindro, sentou. Tão logo levantou-se para checar mais de perto a parede que estranhamente se materializara, percebeu que continuou parado o reflexo. Depois, levantou. Aquele mo(vi)mento pareceu-lhe familiar, e foi assim que lembrou tratar-se de sua própria vida, refletida em mil e oitocentos momentos diferentes e simultâneos a seu redor. É que há tanto tempo caminhava Maria que os calos provavelmente lhe subiram pelos pés e chegaram ao coração, onde guardaram no seu mais profundo aquilo que de início a havia feito começar a correr sem rumo. Agora, presa no seu próprio panóptico metálico, tudo o que ela via era ela a destempo do tempo que corria enquanto via. E levantava o braço direito, e o reflexo levantava-se o esquerdo, momentos após, porque só repetia o passado de Maria. E mais perto chegou da parede, e mais longe viu dentro do que ela própria havia vivido. Era esperado o momento em que cessariam as imagens, então olhou mais fundo e viu o futuro. Nada de novo a passar na tela que a rodeava, porque só andava, e porque só levantava, e porque só esticava o braço esquerdo. Em determinado momento, dias após, ela se viu parada novamente no reflexo que se lhe mostrava. Era angústia o que sentia. E chorosa levantou, e chorosa correu, e chorosa diminuiu a marcha, e fatigada da vida seguiu a caminhar sempre à frente. Foi o que viu. Não era, contudo, Maria no reflexo, senão o próprio reflexo de Maria.
Hoje eu ouvi um cachorro ganir
Nós estávamos na sala de aula quando ele me contou. Tinha ouvido um cachorro ganir, me disse, e continuou dizendo você já ouviu o ganido de um cachorro, sabe como soa, mas hoje eu vi um cachorro com uma das patas toda ensanguentada, presa dentro de um buraco aberto por conta da chuva: o ganido ecoava por toda a rua. Eu sabia onde paravam essas informações no meio da aula, e gostava, apesar daquela cara que ele fazia, sempre tão coitado, e eu queria abraçá-lo, mas só podia ouvi-lo. Então eu juntei mais a minha carteira, virando quase de costas para o professor, e deixei que me dissesse os ganidos dos cachorros não são nada como os gemidos das pessoas, traduzidos por essas interjeições artificiais, ai, ay, ouch, ouïe, como fosse uma cartilha da dor, uma etiqueta. Os ganidos vêm mais do fundo, como se uma contração irrefreável de todos os músculos e órgãos do corpo em dor enfim expressassem o sofrimento todo que lhes apena. Os cachorros ganem, as pessoas lamentam, ele lamentou. E são tão mal treinadas as pessoas nas lamentações da vida que, contaminadas pela dor, elas sequer gemem. Se calam. Murmuram, no máximo, a falta que os ganidos fazem, e soltam ásperos hums arrastados, como se carregassem um peso muito grande. Ele estava acostumado a murmurar, e eu sabia e queria abraçá-lo, que pouco mais poderia fazer, mas só podia ouvi-lo. Continuou falando. Que tão cedo aprendem os movimentos de gemer, esquecem as pessoas de ganir. E o resto da vida fica contaminado dos granidos que nunca saem, parcamente traduzidos por pequenos movimentos de lábios, a boca aberta e logo circundada ou fechada, ele notou, as palavras sempre restringem a dor, e enquanto queremos não mais parar de gritar até que o ar acabe de nossos pulmões, todas as palavras se encaminham para que fechemos nossas bocas, e assim engolimos dores que logo se tornam inexprimíveis: ai, ay, ouch, ouïe, ele repetiu. E tanta coisa é perdida na tradução. O ganido de um cachorro é impossível de se escrever, ele me disse, e me tentou vá, escreva aí, e eu rabisquei um caim num pedaço de papel rasgado que usávamos para trocar recados. Caim?, ele perguntou e riu. Ora, eu já tinha escutado um ganido de cachorro, ele falou, você sabe que não soa assim. Não soa, é verdade, eu respondi, e ele tomou o papel e o lápis e escreveu o ganido de um cachorro, que eu não saberia reproduzir aqui, havia letras que não estão em qualquer lugar ou combinação destas teclas. Isso, ele me disse, isso é o que vai nos salvar, e logo ficou com os olhos marejados, e fez aquela cara que ele fazia, sempre tão coitado. E eu queria abraçá-lo, que pouco mais poderia fazer, mas só podia ouvi-lo. E no meio daquela aula, em meio aos olhares assustados de todos, eu pude, e creio que todos pudemos, então sentir a dor, que dor, que dó, que ele me tentava justificar já há tanto tempo e que carregava entranhada dentro dele. Eu o ouvi ganir.
Desculpe pelos erros de português, este texto não foi revisado.
Se você me perguntar se ainda é seu
Todo o meu amor, eu sei que eu
Certamente vou dizer
Que sim.
Eu tomei dois comprimidos do remédio esta noite. O médico – não bem o médico, certo, mas a assistente, a enfermeira, a estagiária do médico – me disse para tomar um, com muito cuidado, que deveria me fazer dormir tão logo eu o engolisse, então eu tomei dois e, veja você, eu não dormi. E acabei ouvindo essa música no rádio, dei azar de esbarrar a mão no botão que o desliga bem no meio desses versos. Não que eu precisasse ouvi-los, é claro, eu já conheço a letra. Eu a escrevi.
Eu não escrevo mais esses versos, eu escrevo estas frases, esta prosa chata, cansativa, insossa. Eu queria finalmente arranjar uma coisa nova para apresentar, mas eu vasculho e é isso que sai, então é isto que eu escrevo. Já não é mais amor.
E pode parecer tão lugar-comum, veja você onde eu fui parar, estou acordado a uma hora dessas para escrever lugares-comuns. O amor é responsável pelos clichês, e nós somos indulgentes com os clichês, nós nos alimentamos deles e nós os alimentamos. Os lugares-comuns a que leva a dor não recebem desse tratamento, ou não estariam aqui, agora. Com algum talento se transforma qualquer amor e qualquer dor em arte. Nós dois sabemos que não é o meu caso, aprisionado no meu destino de escrever essas cartas eternamente sem nunca remetê-las.
A carta de hoje acabou com o último parágrafo.
É dor que eu sinto, agora, deitado, dois comprimidos a se dissolverem no óbvio e no nulo. Eu gostaria de escrever as coisas que gosto de ler, mas elas já estão tão escritas: só me sobrou este parágrafo para atestar que este sentimento não é capaz de me levar às poesias ou aos haicais. Este sofrimento é quadrado, é pesado. Olhando para ele, é como um paralelepípedo para calçar rua: um tanto disforme, um tanto áspero, um muito cinza cheirando aos pneus que em cima dele queimaram naquelas tentativas de arrancada, que eu tentei. – O que eu faço com ele? – Pela manhã, é sobre ele que me acorda a cabeça. Durante o dia, eu o faço segurar os papéis na mesa. À noite, …, à noite eu corto um pedaço de uma corda que guardo em casa até que dê perto de dois palmos meus. Então eu amarro uma ponta ao tornozelo meu menos machucado naquele dia; a outra, a esse sen ti mento. Depois pulo, os papéis ao vento, na dolorida vertigem da memória.
r.g.
Passo para avisar que estou mudando de nome.
Antes que você chie, antes que você reclame, deixe-me apenas dizer que o faço por sua causa. Você lembra bem aquela enorme discussão que um dia tivemos sobre nomes. Foi quando tentamos descobrir um para a nossa filha. E eu ainda nem estava grávida na época. Mas daquela conversa eu me lembro de ter-lhe dito sobre como não conseguia me reconhecer em meu próprio nome. Que, inclusive, achava engraçado me tomarem por A ou por B, simplesmente porque não me via em mim própria, em nenhuma delas. Fez sentido, porém, no dia em que eu prestei atenção à sua voz chamando por mim. Dramático o jeito que se abria. Do assobio que ressoava, assim de início, na nascente do S por que começava meu antigo nome. Era então quando você comprimia os lábios e fazia aparecer um outro som qualquer. Logo após a língua tocava-lhe os dentes, e ninguém falaria desse jeito tão obsceno quanto você, eu mesma nunca ouvi de outra pessoa. A língua tocava os dentes e os dentes tocavam os lábios, e era propriamente dessa guisa que completava, quando a boca voltava a abrir, e quando os dentes apareciam, e com os lábios algo soltos, o meu nome. Era a primeira letra a quebrar o silêncio, ou a aquietar todo som, e, ao que me acostumava, as outras acompanhavam-lhe como em sinfonia. Se não significava nada vindo da garganta de outras pessoas, da boca de outros amantes, ou de minha própria cabeça, quando era você quem falava eu me via. Um outro dia você usou essa mesma sucessão de movimentos enlaçantes para me desatar do seu convívio. E de repente eu me veria em todas as bocas e gargantas que ousassem arranhar meu nome, mas aquela quem eu via não era eu mais do que eu esperando encontrar você, razão por que passo para dizer. Que mudo meu nome, ou fico surda. Das opções, à espera de um dia ainda ouvi-lo sussurrar esses novos desenhos que me inventei desesperada, escolho a primeira. Magda.
do clichê sobre a luz em meio à escuridão
(quem nunca escreveu sobre isso nunca escreveu sobre nada)
Para Rafael Becker, que ficará com duas pulgas atrás de cada orelha.
Ontem apagou a luz. Quero dizer, cortou a energia, apagou tudo, ficou tudo escuro. O quarto, o corredor, a sala, a casa, a rua. Era de madrugada, já, e tão de madrugada que comigo só estavam mesmo acordados os drogados, as prostitutas e os desolados, grupo do qual eu fazia parte até ontem à noite, quando apagou a luz. Apagou a luz e ficou tudo escuro. Não sei por quê, se pelo silêncio ou pelo acaso, os alarmes de dois carros começaram a soar na rua, em frente a casa, e não me deixaram dormir. Não que eu fosse dormir de qualquer maneira, não tenho certeza, mas acho que estava um tanto insone, dormindo tão tarde e tão mal e tão pouco. Então levantei para pegar um pouco de água, pisei no meu cachorro, bati de frente na porta do corredor que ontem estava fechada, e que sempre fica aberta, tropecei no sofá da sala, mas cheguei ainda vivo à cozinha. Abri a torneira, peguei um copo, enchi de água, bebi. A pia da minha cozinha fica encostada numa parede com janelas e foi de lá que eu vi. Não sei como nunca tinha reparado, talvez a luz incessante de todo dia e toda noite me cegasse. É tanta luz à noite, todo o mundo começa a acender suas lâmpadas e suas televisões e seus rádios com leds azuis, vermelhos, verdes, a luz dos carros, dos postes, dos olhos dos gatos na rua, a humanidade realmente acha que a luz à noite ajuda a enxergar, mas a verdade é que ela cega. Eu descobri isso ontem, porque foi ontem que eu vi. Apagou a luz e ficou tudo escuro. E daí, brilhando mais que tudo, eu vi, pela janela da cozinha, eu, encostado no balcão de frente à pia, com uma visão privilegiada da parede com a janela e da janela e do que a janela me proporcionava ver, eu vi, como fossem dois sóis em um único ponto, como fosse um pirilampo embriagado, mas muito brilhante, eu vi voando por fora da janela todo o amor que eu tinha, que eu tinha esquecido há tanto tempo. Ele bateu no vidro, tornou a subir e entrou. Da rua na casa, na sala, no corredor, no quarto, em mim na cozinha. Entrou num baque, eu pude senti-lo vibrar de repente em cada parte do meu corpo, a empurrar o sangue a correr nas veias, a instigar os ouvidos, abrir os olhos, bater o coração. Hoje, hoje eu durmo o sono que eu tanto esperava, aquecido pelo amor que eu há tanto esquecera, e já não faço mais parte de grupo algum a perambular pela madrugada que não o daqueles que sonham, e que sabem, que o amor existe, e resiste, e reside em mim.
gato escaldado e outras pérolas
e era tanto calor naquele incêndio e era tanta dor naquele incêndio e era tanto medo naquele incêndio e era tanto fogo naquele incêndio que não há jeito melhor de descrever o que aconteceu que não dizendo que o fim foi mesmo um balde de água fria.
é sério
Olha, o que eu vou escrever aqui é mais uma carta de alforria que qualquer coisa que tu estejas disposta a ler, principalmente por vir de mim. Ela não terá disposições claras e coerentes, artigos intermináveis. Mas o fato, e tu sabes, é que eu preciso acertar um dia para isso tudo acabar. É hoje. Eu não aguento mais chegar e não saber como lidar. Eu não te suporto mais pegando no meu pé, para falar a verdade. A ideia toda de nós dois foi boa há muito tempo, e os pontos positivos certamente eram muito maiores que os negativos, mas eu cansei. Cansei de me desdobrar por ti. Cansei da tua implicância, e nem sei o que, realmente, eu vejo em ti no fim das contas, ou via. Com ou sem acento esse que, eu também não sei. Nem esse último, aliás. Quer dizer, esse último eu sei que tem. Agora já virou penúltimo, tanto faz. Nossas conversas sempre descambam para isso, não é? Eu não te quero mais. Quem teve a ideia estúpida de virmos morar juntos, afinal? Quando eu saí da casa de meus pais, eu já estava odiando minha própria mãe. Não seria diferente contigo. Mas toda vez que eu tento pensar em fugir, meu amor, eu volto atrás. Eu não sei bem, nem sei se quero lembrar, como era viver sem ti, sem teu afago, sem teu comentário desnecessário enquanto a gente assiste ao jornal. Eu só sei que, a partir de hoje, eu não quero mais. Porque tu me incomodas. Eu não sei explicar em palavras, ou até sei, porque já falei para tanta gente, mas de alguma forma não acho justo te confrontar com as coisas que eu penso, que eu vejo, que eu vivo. Tu és linda. Tu farás todas as pessoas felizes. Eu só desaprendi a te apreciar. Com o coração meio partido, meio aliviado, eu vou.
E se, quando eu te vir de novo pela primeira vez em tanto tempo, minha querida, eu tremer, eu suar, é só porque este corpo ainda não aceitou esta carta de alforria e vê-se preso em algemas de paixão.
PS: o feijão na geladeira precisa ir para o lixo.
quarta esquina
Nós estávamos naquela sala, de novo. A sala da casa dela, uma bagunça meio organizada, eu já tinha estado lá dois anos antes e estava lá de novo. Aliás, estávamos. Eu e ela. E eu olhava ela com o meu olhar mais complacente, porque ela chorava, mas eu olhava bem no fundo dos olhos dela, que era para ela sentir que quem estava ali naquela sala, com ela, de mãos dadas, era alguém que se importava com ela. Eu não tinha tanta certeza. Mas não era momento de dúvida e nem era momento de discussão, eu não iria trazer aquele debate chato de que a nossa relação já está desgastada, nós nem somos namorados mais. Eu namoro outra, não sei se ainda dói no coração dela, faz tanto tempo. O que doía agora, e doía de verdade, que a dor vertia pelos olhos, era o tal de, nem sei o nome dele. Não dou a mínima para os namorados dela, acho todos canalhas. Nunca erro. E daí nós estávamos lá naquela sala, de novo, jogados no chão, sobre o tapete, com as cabeças encostadas no sofá, ela me pediu uma água e eu levantei para pegar. Aproveitei e botei para o tocador começar a soltar a música de qualquer CD, acho que a gente precisava de algum barulho. Aliás, eu não vejo mais onde a gente não precisa de algum barulho. Ninguém mais sabe lidar com o silêncio, eu falei para ela, enquanto o CD do Buckley começava a tocar, e ela resmungou alguma coisa, talvez uma reclamação qualquer sobre a música que o dentista resolveu colocar no consultório. Eu levei a água para ela, ela chorava tanto que poderia muito bem encher aquele copo umas três vezes em pouco tempo, ela estava tão desesperada, e eu mantia meu olhar firme, complacente, no fundo dos olhos dela, que na verdade já me desviavam e olhavam para a lâmpada acesa, que cegava, a luz era tão forte, acho que ela não queria mais ver coisa alguma àquela noite. E daí começou a tocar aquela música que eu mandei para ela umas semanas depois que nós terminamos, alguns anos atrás, aquela música tão sofrida, não duvido que ela tenha ficado num estado parecido com este que estava agora, na verdade acho até que era minha intenção que ela sofresse um pouquinho mais, para que eu sofresse um pouquinho menos. Nós tentamos, é verdade, mas não conseguimos nos aguentar como namorados por muito tempo, talvez nós sejamos parecidos demais, talvez tenhamos assunto demais, eu só sei que foi bom que a gente acabou e que agora somos amigos e ela deita no meu ombro e chora. Foi naquela época, a época em que eu mandei a música, gravada numa fita cassete, eu queria fazer ela ir atrás de algum aparelho que ainda tocasse fita cassete, foi naquela época que a gente descobriu, ou pelo menos percebeu, não sei se a gente já aceitou, mas pelo menos a gente entendeu com aquela música. Que é quase como aleluia, não tem como negar. É quase como milagre. Nós já nos envolvemos com pessoas o suficiente para perceber o quanto elas nunca vão chegar perto daquilo de que a gente sofreu, um tempo depois, e quase ao mesmo tempo, de que a gente terminou. Que é quase como aleluia, mas também é uma inversão, não, invenção, não, eu realmente acredito que seja algo genuíno, mas é a inversão do grito de aleluia, é quase como um milagre, como também é milagre o câncer que nem duas pessoas no mundo têm e que você descobre ter também. E é tão sofrido, e é tão difícil, e é tanto. A gente vê nas novelas, a gente vê nos filmes, nesses livros que ela adora ler, essas coisas com nome de mulher, Sabrina, Letícia, nem sei direito, mas a gente vê lá e é uma coisa tão bonita, a gente quer tanto alcançar alguma coisa assim, é tanto a marcha da vitória, é tanto a coisa graciosa, é tanto a realização. Mas a gente descobriu, e descobriu e logo relacionou à música, nossa, como é sofrido, e como é raro. Eu acho mesmo que essas lágrimas que ela não para de chorar, eu acho mesmo que elas caem porque ela descobriu, não que não era amada, não que o outro não gostava dela, mas ela acabou de se dar conta, eu já me dei conta tanto antes, ela acabou de perceber que não é fácil gritar aleluia, não acontece sempre, e por mais alto que você consiga tirar da sua boca, nunca soará a mesma coisa. Ela descobriu, eu sei, ela descobriu que o amor não vem muito mais que uma vez. E que dói.
primeira conjugação
Amar é se rebaixar. É ficar pior, é ficar a falta. Se a completude não resulta do outro, então não é amar. Amar é achar que dar para melhorar quando não vai ficar melhor. Amar é não escutar. A si. Aos outros. É virar para dentro e estar de fora. É chorar de tanto amar. Amar é só olhar. Amar é cegar. Fechar os olhos para tudo, e ainda assim continuar de olhos abertos para não desviar. Amar é estar mal. Ou amar é, basicamente, não estar. E, ainda assim, vivenciar tudo aquilo. A mil. A milhão. Amar é pular fora. De si. Dos outros. Mergulhar de cabeça e não se preocupar. Ou se preocupar, mas a preocupação não deixa as coisas mais fáceis. Não adianta saltar do avião e achar que não vai chegar. Ao chão. Amar é a batida. Da cara contra o muro. Amar sangra. Amar é ser espancado a cada sístole. É ficar roxo de amar. De dor. Amar é recear. Si mesmo. Os outros. Olhar inúmeras vezes antes de dar o primeiro passo para atravessar a rua. Tanto faz. O caminhão sempre chega na hora errada. Atropela. Amar é não esperar. De si. Dos outros. Amar é esperar que amar acabe. Rezar, até. É não aguentar mais amar. É sempre tombar no último degrau. É sempre voltar ao início. Amar é sempre não querer mais.
Amar é dar-se. Ao outro.
Amar é não se amar.
O corpo não aguenta dois amores.
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