stare
Encontrei uma foto 3×4 minha. Suponho que seja de 1994 porque ainda conto com todos os dentes de leite na arcada superior. São os visíveis, porque esboço um sorriso. Apesar de ser uma foto 3×4, eu sorrio. Torto, mas ainda é um sorriso. Nunca mais pude sorrir numa foto 3×4. Não sei se os tempos são outros ou se é a seriedade que se espera de um adulto. Há outra extravagância infantil na foto: estou em ângulo para a câmera. Essa escolha provavelmente partiu de minha mãe, então era também minha. Algo me entristece na foto. Não sei o que é porque é uma foto absolutamente banal. Com isso, quero dizer que ela é absolutamente banal. E que, banal, ela o é absolutamente. Que é trivial na sua raridade e vice-versa. Não sei se ela captura o instante. Acho que ela encerra um tratado sobre a distância. Não sobre o tempo, que dista. (Essa tristeza não se confunde com a nostalgia.) Mas sobre esse vão imensurável que é ser a própria pessoa. Comentei outro dia a paixão com que observo as palavras que se dobram sobre elas mesmas. Que participam da própria definição. O amor tem sempre muito de inveja. Reconhecer-me naquela foto é um processo dolorido que não tem nada de imediato. Reconhecer-me no meu nome é um processo similar. Esse procedimento não me arranca nada: ele me sobra. A imagem que seguro é a foto da falta.
E que seriedade é esta que repele o sorriso.
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