apocalipse
deus destrói tudo
mas não impede que eu lago morra
deus queimava a cidade
enquanto eu só domava pensamentos
(in)cômodo
Há quatro paredes, duas delas medindo quase dez pés; e as outras duas, catorze. Estão pintadas de branco e encontram-se com o teto num detalhe trabalhado em gesso, de onde surgem oito pequenas lâmpadas que providenciam bastante iluminação. No centro do teto, há o lustre, com capacidade para duas lâmpadas comuns. A parede da esquerda tem uma janela grande, com dois vidros, que mede pouco menos de seis pés. Ela pode ser coberta com duas cortinas venezianas formada por finas placas de metal, empilhadas na horizontal caso subam as cortinas, com o puxar de duas cordas, lembrando barbantes, que existem nas bordas de cada uma das cortinas. Ao lado direito da janela fica o aparelho de ar condicionado, cuja potência não está descrita na parte de frente, visível, do aparelho, à qual se tem acesso de dentro da sala. A parede da frente está ornamentada com uma peça de madeira de mogno, da qual sobressaem duas faixas compostas por pequenos blocos de bambu. Essa peça possui três pequenas prateleiras, de cerca de um pé e meio, sobre as quais se sustentam: duas máscaras em miniatura, em prata; duas esferas de vidro pintado em vermelho, e; três bonecas russas. Abaixo dessa peça, fica o aparelho de televisão de marca Gradiente, com dois alto-falantes juntos aos lados verticais da tela, apoiado sobre um móvel, também de mogno. Sobre o móvel, do lado esquerdo do televisor, encontra-se um dispositivo eletrônico para jogos e, do outro, as esculturas de dois gatos. Também apoia-se um pequeno aparelho de rádio à pilha, que não faz parte da decoração. O móvel ainda conta com duas gavetas, onde estão guardados discos, em uma, e objetos diversos, em outra. Há três nichos nesse móvel, e neles foram colocados o aparelho de vídeo, um coração decorativo, o aparelho de sinal a cabo e muitos títulos de filme e concertos musicais. Ao lado direito do móvel, junto à parede da frente, há dois vasos trabalhados em cerâmica. Essa parede tem duas tomadas, onde estão ligados todos os aparelhos eletrônicos. É na parede da direita que se encontra a porta de acesso, que tem pouco mais de três pés de largura, com maçaneta prateada e um olho-mágico. Pendurada nessa mesma parede está um espelho redondo de em torno de quatro pés de diâmetro. Sob ele encontra-se um aparador, sobre o qual estão posicionados: dois vasos vermelhos em vidro; dois porta-retratos; diversos objetos que não fazem parte da decoração da sala. Esse aparador tem seis pés de comprimento e um e meio de profundidade. A parte de cima é feita em madeira revestida com couro. A sustentação se dá por quatro barras que se cruzam duas a duas, de aço. A parede de trás é branca e lisa, com um vão para o acesso aos demais cômodos. Junto a ela está encostado um sofá, com braços, de três lugares, de tecido preto, com três almofadas em cinza e uma em vermelho. Um dos assentos avança até pouco mais à frente, de maneira que se pode descansar os pés. Ao lado esquerdo desse sofá, há uma mesa decorativa, redonda, cujas pernas são bastante delicadas. Sobre ela encontra-se um vaso preto com tulipas vermelhas. A parede de trás possui duas tomadas, numa das quais está ligado o condicionador de ar, e dois interruptores de luz. Nela está pendurado um quadro de duas tulipas vermelhas, assinado do ano de 2007. No centro do ambiente, há uma pequena mesa, de não mais que um pé e meio de altura, com interior vazado. Sobre ela estão um tabuleiro de xadrez, dois vasos pequenos em ferro e uma escultura sobre cujo material não há precisão. Finalmente, o chão é revestido de piso de madeira clara com nós aparentes, e liga-se às paredes por um rodapé elaborado com o mesmo material.
phallus impudicus
xo sexo sex
exo sexo sexo sexo
na sociedade fálic
a: pega na cabeç
a do meu pau.
ode ao colar cervical
Há tensão: dói-me tanto meu pescoço!
Já não mais me vejo jovem moço;
E hoje, num tão breve entrementes,
Consigo mirar sequer à própria frente.
Tendo ido-me ao doutor, o que diria
A usar: colete; e bolsa de gel fria,
Resto vestido de belo exoesqueleto,
Um derivado alvo de hidrocarboneto.
fil.
desvirtuamento filosófico
começa já a dar e
soltar suas pistas:
o nominalismo
virou nome na lista.
Ali se via Alice, ao léu dos alíseos, aliciando aliados a dilacerar os alicerces do Lácio. Desavisada, contudo, dos alvitres ventilados – à vera – por velhos, venerandos vernáculos vindos dos vales do veneno e do vinho, vociferou à face dos que falam “favor, fervor ao favo”, ferozmente frente à figura dos filhos de Vaz (de Camões), papagaios dos pampas, dos passeios nas praias, dos prados – pôs-se a pensar de nós, brasileiros à brasa, bradando, os braços dados, nada cabreiros, obrigações em meio à brisa. Tentativa frustrada, fruto de frágil pensar, vez que, a bem da verdade, bastantes vidas buscavam beber do que vertia (e verte) das bocas abertas, de Lisboa à Bahia: tão bela língua, liame de lírico e onírico, larga literatura, letra louvada, levada ao limite da própria letra. Foi aí que Alice, ali se vendo refletida, ressabiou-se, resignada, e serviu, assim, à fina flor contra que antes levantava.
r.g.
Passo para avisar que estou mudando de nome.
Antes que você chie, antes que você reclame, deixe-me apenas dizer que o faço por sua causa. Você lembra bem aquela enorme discussão que um dia tivemos sobre nomes. Foi quando tentamos descobrir um para a nossa filha. E eu ainda nem estava grávida na época. Mas daquela conversa eu me lembro de ter-lhe dito sobre como não conseguia me reconhecer em meu próprio nome. Que, inclusive, achava engraçado me tomarem por A ou por B, simplesmente porque não me via em mim própria, em nenhuma delas. Fez sentido, porém, no dia em que eu prestei atenção à sua voz chamando por mim. Dramático o jeito que se abria. Do assobio que ressoava, assim de início, na nascente do S por que começava meu antigo nome. Era então quando você comprimia os lábios e fazia aparecer um outro som qualquer. Logo após a língua tocava-lhe os dentes, e ninguém falaria desse jeito tão obsceno quanto você, eu mesma nunca ouvi de outra pessoa. A língua tocava os dentes e os dentes tocavam os lábios, e era propriamente dessa guisa que completava, quando a boca voltava a abrir, e quando os dentes apareciam, e com os lábios algo soltos, o meu nome. Era a primeira letra a quebrar o silêncio, ou a aquietar todo som, e, ao que me acostumava, as outras acompanhavam-lhe como em sinfonia. Se não significava nada vindo da garganta de outras pessoas, da boca de outros amantes, ou de minha própria cabeça, quando era você quem falava eu me via. Um outro dia você usou essa mesma sucessão de movimentos enlaçantes para me desatar do seu convívio. E de repente eu me veria em todas as bocas e gargantas que ousassem arranhar meu nome, mas aquela quem eu via não era eu mais do que eu esperando encontrar você, razão por que passo para dizer. Que mudo meu nome, ou fico surda. Das opções, à espera de um dia ainda ouvi-lo sussurrar esses novos desenhos que me inventei desesperada, escolho a primeira. Magda.
2/n
Sei que é o outro que define o que faço. Ao sair do carro, nem cinco minutos atrás, encontrei um amigo com quem há muito não falava. Ainda estamos conversando. Desenho um esboço rápido, rabiscado, do que vem acontecendo na minha vida. Ele olha para o lado, e sinto, nesse pequeno gesto, que me julga. Ceifa-me a liberdade em um lance de íris à direita. Gosto da sensação. De alguma forma, passo a significar algo além de mim mesmo, agora inscrito no pensamento do outro. Vislumbro as possibilidades de rebaixar-me ao olhar do outro. É algo agradável não ter de andar pelas próprias pernas, mas agarrado ao pensamento que o outro constrói acerca de mim. Não importa quantas vezes lhe diga que estava com fome. Sou bandido. De certa forma, é a primeira vez que passo a fazer parte de um grupo mais restrito que “o gênero humano”. A identificação não é de todo verdadeira, porém me completa. É verdade, é verdade. Não quero roubar. Mas me é fácil, agora. Ouço-o contar alguma coisa, mas não escuto. Estou absorto enquanto ele move os lábios e denuncia a improbabilidade desta conversa. Começo a acreditar que não estava bem com fome, que tinha apenas vontade. Meu coração se aquece. É a primeira vez que reconheço a liberdade, porque já não sou mais livre. Enquanto observo a língua de meu interlocutor tocar-lhe timidamente o céu da boca, na aparência de um “ele” que vejo mas não ouço, sinto um arrepio de prazer. É a angústia que escorre em totalidade para fora de mim. Pois que destarte sucumbo à verdade do outro: sou.
1/n
Estou caminhando pelo estacionamento. É grande, é grande. Eu sempre descubro no momento mais desgraçado o quanto é grande este estacionamento. Hoje não chove, mas o vento bate direto contra o rosto, embaraça os cabelos, faz minhas bochechas ficarem vermelhas. Não que eu me importe com as bochechas ou os cabelos, caminho pelo estacionamento sozinho e não parece ter ninguém à vista. Só me importaria acaso houvesse o outro a caminhar também pelo estacionamento, mas todos esses transeuntes não sustentam qualquer categoria que valha a mim qualquer coisa digna de arrumar-me os cabelos ou cobrir-me as bochechas com o casaco de lã. Hoje descobri o quanto é grande o estacionamento porque não lembrei onde estacionei. Acontece com todos, acredito. Avisto o carro, finalmente. Saí do prédio atravessando a porta errada, caminhei mais de mil e oitocentas colinas para ter o desprazer de lembrar que o carro estava mil e oitocentas colinas atrás. À esquerda. Estou abrindo a porta do carro. Abaixo-me, sento-me. Estou dentro. Ainda não sei bem se foi a melhor ideia vir de carro. Mas já estou fora, então ligo. Dou a partida. Não liga. É bastante comum acontecer, e não sinto vergonha. Estacionei de modo que posso soltar o freio de mão e deixar o carro rolar alguns metros até que consiga ligar. Às vezes não tenho essa sorte, mas hoje tive. Estou tendo um dia bom.

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